
03/2026
O
quão profundamente você experimenta a liberdade em sua vida?
Você pode se culpar por deliberadamente optar pelos “5 minutinhos” a mais na cama que te fazem chegar atrasado nos seus afazeres. Ainda que esteja frio, chovendo ou que você não tenha tido uma boa noite de sono, há a consciência de que recai sobre você essa escolha e suas consequências derivadas. Agora, encontrar esse limiar entre as condições que podemos chamar de “impositivas” e a capacidade de escolher resistir a elas fica cada vez mais nebulosa com o aumento da intensidade de tais condições. A chuva, em maior intensidade, pode sim te impedir de chegar ao seu trabalho ainda que desejasse. E estas aspas “ainda que desejasse optar pelo bem me recai o mal” justifica moral e socialmente a falta de seu dever.
A análise se torna mais difícil quando as aqui dispostas “condições impositivas” são de natureza auto infligida. Eu me separo da culpa quando ela é externa a mim, mas quando a condição impositiva tem origem no mesmo cérebro que a julga, o debate acerca da moralidade das decisões tomadas pelo individuo pode dividir opiniões.
O fato é que o poder escolher impele a criação de uma lei moral que defina boas e más escolhas e, por consequência, uma variedade de religiões e filosofias que buscam o aperfeiçoamento do individuo para obter sucesso em uma vida física ou até metafísica. Reencarnar, atingir a iluminação, ou dentro do cristianismo a remissão, como solução para o que a bíblia chamará de pecado, natureza que nos impossibilita escolher o bem de forma natural, não nos isentando, contudo, da culpa de pratica-lo, sendo sua consequência (a morte) justa a todos os seres humanos desde o seu nascimento. Como um dependente químico que não se isenta das consequências decorrentes do uso de entorpecentes pois as escolhas pelo seu bem ou pelo seu mal se apresentam a cada pensamento, ainda que sua condição o direcione a escolher continuamente o mal.
“Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” Gênesis 6:5
Como se trata de um relato pessoal partiremos desta cosmovisão, de que Deus existe, sua lei se estabelece como o parâmetro moral e que o livre arbítrio é uma verdade bíblica. Não é o intuito deste post fazer uma análise teológica acerca da discussão entre as correntes arminianas ou calvinistas, e sim fazer uma análise secular deste tema de forma a enriquecer o debate religioso, portanto peço licença aos meus irmãos e amigos que porventura discordem da minha interpretação bíblica neste ponto.
O Demônio de Laplace
Há alguns anos fui apresentado a este experimento mental proposto pelo matemático, astrônomo e físico francês Pierre-Simon Laplace em 1814, no seu ensaio Essai philosophique sur les probabilités. A ideia é interessante:
Imagine uma inteligência capaz de conhecer exatamente a posição e a velocidade de todas as partículas do universo em um dado instante, além de compreender perfeitamente todas as leis da natureza. Com essas informações, essa inteligência poderia calcular tanto o passado quanto o futuro do universo com total precisão. Como se acompanhasse a queda de uma fileira de peças de dominós que, por obedecer leis conhecidas de conservação de energia da física clássica, permitiria que, por meio delas se reconstituísse, a partir de qualquer ponto da cadeia, a origem do movimento (seu passado) ou para onde ela tende (seu futuro).
Essa proposição de fato nos faz refletir, porque extrapolando os dominós, se somos regidos por leis determinísticas podemos concluir que a aleatoriedade que experenciamos é apenas um reflexo da nossa incapacidade cognitiva de forma prática. Um dado não caí com o número 6 para cima porque ele é de fato aleatório e sim porque ele foi lançado de determinada posição, com determinada velocidade, e com formato, e com massa e densidade específicas, interagiu com uma superfície originado um movimento que o colocou nesta posição final, com o número 6 para cima. Este principio parece se aplicar a outros jogos, como o bingo (por meio da colisão das bolas) ou até mesmo algoritmos computacionais para gerações de senhas “aparentemente aleatórias” mas que também derivam de um pensamento de máquina que poderia ser reconstituído,
Assustador não é? Mais do que dados, o experimento de Laplace quer nos fazer refletir acerca da nossa própria individualidade. Somos verdadeiramente livres ou somos o efeito de uma cadeia de causas consecutivas?
Em primeira análise cheguei a uma conclusão conflitante. A minha fé era fundamentada na ideia de um livre arbítrio que não podia se justificar dentro da dedução determinística. Portanto, a conciliação das abordagens cristã e secular para a filosofia da liberdade dependia de um erro no cálculo do “Demônio” proposto pelo Laplace, um elemento de real aleatoriedade e que descrevesse sistemas fundamentalmente caóticos e irreconstituíveis. Para fins de praticidade, daqui em diante o referenciarei como o elemento “A”.
O antagonista
A proposição do elemento “A” logo se mostra frustrante quando percebemos sua natureza como sendo mais próxima de um termo imposto em nossa equação para favorecer o resultado que mais nos conforta do que um elemento capaz de ser descrito criteriosamente. Portanto, chegamos a um beco extremamente desconfortável, onde a confirmação secular da fé depende de um elemento teórico “Aleatoriedade”, que não conhecemos nem concebemos, que decorra de um efeito sem causa e que possa estabelecer limites a consolidada visão determinística.
Neste ponto é importante reconhecer que a fé não se torna mais forte ao suprimir a razão quando esta a condena, pelo contrário o salmista dirá:
“Sacudiste a terra e abriste-lhe fendas;
repara suas brechas,
pois ameaça desmoronar-se.”
Salmos 60:2
De fato tais conclusões sacudiram-me por um longo tempo mais o amadurecimento me trouxe a percepção de um salto lógico crítico em minha proposição anterior. Observem o desdobrar do experimento mental de Laplace quando exposto a elementos da física moderna:
- Nem todos os sistemas determinísticos são computáveis em princípio e a previsão do sistema “universo” exigiria mais tempo ou memória do que o próprio universo possui. O que jogaria o Demônio de Laplace para o campo da metafísica pois ele deveria ser mais rápido que o tempo físico, maior que o universo e externo a ele.
- O Princípio da Incerteza de Heisenberg exemplifica a impossibilidade da obtenção de todas as variáveis iniciais ao postular que, em se tratando de partículas quânticas (como um elétron) quanto mais precisamente se conhece a sua posição, menos precisamente se conhece a sua velocidade, e vice-versa, devido a uma limitação fundamental da natureza.
- Fenômenos como
a sobreposição quântica desafiam a lógica determinística apontando para um universo probabilístico, sobre o qual o Demônio de Laplace só teria controle a partir de uma “verdade” (que convém nomear como Elemento “D”) a qual não conhecemos nem concebemos, de caráter quase metafísico e que pudesse trazer uma causa determinísticas a estes fenômenos.
Percebeu? Assim como acaso (Elemento “A”) não pode ser encarado como reposta por não possuir natureza descritível, o determinismo também necessita de manobras ininteligíveis (Elemento “D”) para justificar fenômenos da realidade que nos compõe.
Tal constatação instigou discussões e intrigantes comentários entre mentes brilhantes ao longo da história, até os dias atuais, sendo esta, talvez, a mais divertida sequência deles:
“Deus não joga dados com o universo” – Albert Einstein
“Einstein, pare de dizer a Deus o que fazer.” – Niels Bohr
“[Deus] às vezes joga [dados] onde ninguém pode ver”. – Stephen Hawking
Para maior aprofundamento no assunto recomendo a leitura do artigo “O Demônio de Laplace: por que determinismo não é previsibilidade” da revista Medium que estará referenciado ao final.
Encerro, portanto, este post com a conclusão magistral do PhD Jorge Guerra Pires no referido artigo:
“Laplace expulsou Deus e colocou um demônio onisciente no lugar. Einstein expulsou Deus e tentou salvar a racionalidade sem recorrer ao acaso. Ambos falharam pelo mesmo motivo profundo: exigiram da natureza mais transparência do que ela parece disposta a oferecer.
O universo moderno não é: um relógio perfeito nem um cassino metafísico. Ele obedece leis, mas impõe limites — de informação, de computação e, possivelmente, de causalidade.
A lição final não é que Deus joga dados.
É que nós não escolhemos as regras do jogo.”
Como isso te faz refletir sobre os papeis da fé e da razão como ferramentas para o entendimento do universo?
Quais são os seus limites e os espaços que ocupam?
Até que ponto podemos trabalhar sua complementariedade?
E como lidar quando há um aparente conflito entre estas abordagens?